08/12/2015

Sobre como o feminismo me salvou...

Eu nunca escrevi sobre como me tornei feminista e, na verdade, nem sei se esse momento aconteceu de fato. Acho que fui me tornando feminista ou talvez apenas me reconheci e entendi o porquê de eu ser sempre tão 'diferente'.
Recentemente numa conversa com uma amiga eu tava falando que sempre cobro muita honestidade das pessoas porque eu pago um preço muito alto por ser quem eu sou. Já cansei de ouvir o quanto eu sou difícil, chata, o quanto tenho personalidade forte ou apenas 'sabe como ela é, né?'. E tudo isso porque eu falo o que eu penso, por mais que eu me cale, eu falo o que eu penso felizmente ou infelizmente (ainda não sei).
É engraçado porque a minha família sempre foi de grandes mulheres. Minha avó era aquele retrato de matriarca, o elo central da família e quem trazia equilíbrio e serenidade para todos. Ela me contou um dia que a avó dela era portuguesa e casou com um escravo alforriado e que naquele tempo aquilo era transgressor e acho que foi aí que me toquei que minha família era uma família fundamentada na força da mulher. Mainha eu nem preciso dizer a fortaleza que era porque vocês já leram mais sobre ela do que tudo aqui neste blog.
Mainha, minha avó e minha tia criaram a gente (eu e minhas primas) para trabalharmos, sermos independentes, nunca depender financeiramente de homem para, no dia que não quisermos mais estar num relacionamento, acabar e não ficar presa na infelicidade por questões financeiras. Sempre achei isso massa, trago comigo até hoje e, se um dia tiver uma filha, quero ensiná-la a mesma coisa. Mas lembro como fiquei decepcionada com mainha quando cheguei em casa chorando e dizendo que meu namorado havia me traído e ela olhou pra mim e disse 'É assim mesmo, homem trai!'. Aquilo machucou mais do que a traição porque como a pessoa que me ensinou a ser independente vem me dizer que eu tenho que me conformar e que todo homem é igual?
Aliás, sobre ser traída... foi duro! Não apenas porque meu companheiro se interessou por outra mulher e consumou o interesse, mas porque ele era a minha esperança, a esperança de que não, todos os homens não são iguais! Foi difícil não acreditar, novamente, nessa máxima machista de que todos os homens são semelhantes e, sendo assim, todos traem. Eu me trabalho para desconstruir isso todo dia, mas na verdade esse trabalho é do homem, é ele que tem que passar segurança para a sua companheira e é ele, também, que precisa desconstruir esse machismo de que homem pode fazer tudo e a mulher precisa apenas aceitar.
Voltando à mainha... ela sempre disse que agradecia a Deus eu ter nascido em 85 porque se eu fosse jovem durante 64 ela tinha certeza que eu morreria nos porões da ditadura e que talvez ela nunca tivesse meu corpo para enterrar. Lembro do dia que cheguei em casa de noite, depois de ter voltado da delegacia onde meu namorado estava detido por 'vandalismo' por ter batido palmas durante os protestos contra o aumento das passagens em 2005. A cara dela era de desespero, preocupação e medo de que aquilo fosse um novo 64 e de que o pesadelo dela poderia, então, virar realidade. Eu tive que explicar a ela que lutar pelo o que eu acredito era parte de quem eu era e de como ela havia me criado para ser, que ela deveria estar orgulhosa de mim porque eu não fugi à criação que ela me deu. Ela me abraçou chorando, disse que sabia, mas que tinha medo porque eu era tudo o que ela tinha. Eu só consegui agradecer e chorar junto com ela repetindo que ela também era tudo o que eu tinha (e continuo tendo).
É difícil ser sempre tachada como difícil porque eu não me calo (e olhe que eu me calo diariamente, vocês não têm noção). Volta e meia eu escuto de umas amigas que política, religião e futebol não se discutem e eu acho engraçado quem inventou essa conversa porque como assim não vamos discutir política? Nós somos seres políticos por natureza! Se chove e alaga a minha rua, isso é política! Se eu sou assaltada na parada de ônibus, isso é política! Se eu vou à praia ver os shows do réveillon, isso é política! Como assim política não se discuti? Discuti sim! É preciso sempre alimentar a discussão porque é isto que nos faz esclarecer dúvidas, conhecer processos e ajudar a melhorar o país. E religião? Claro que se discuti! Eu não posso abortar legalmente porque no meu país isso é crime por ser pecado e pecado é religião, sendo assim, ela interfere sim na minha vida e precisa ser discutida. Tenho amigos que sofrem preconceito por serem de religiões de matrizes africanas e tenho certeza que eles querem sim discutir religião. Quanto ao futebol, não me interesso e só falo dele para tirar onda com os outros, até porque não entendo, mas acredito que deva ser debatido também. Aliás, já fui olhada com repreensão porque disse que acreditava, e ainda acredito, ser um absurdo o país largar cedo nos dias de jogo da seleção brasileira em copas do mundo. Então meus caros, esses 03 tópicos e tantos outros devem ser debatidos sim porque é o debate que nos abre os horizontes, que ajuda na construção do conhecimento e, principalmente, no fortalecimento do discurso. Debater é massa!
Às vezes eu acho engraçado como certos discursos estão tão arraigados em algumas pessoas que elas não têm consciência do preconceito que está embebido neles. Recentemente uma amiga me perguntou porque eu usava dedos e bonecos negros nos emoticons do whatsapp se eu não era negra. E eu respondi a ela que eu era negra sim e ela ficou brincando dizendo que 'claro, você é negona!'. Eu não tenho a pele preta, infelizmente, mas meu tataravô era escravo, meu avô era negro, meu tio é negro, minha mãe era negra, como assim eu não sou negra? Sou sim! Claro que o fato de não ter a pele preta me impede de sofrer o preconceito racial e que eu não sei o que é sofrer racismo (diretamente contra mim) por isso, mas olha as minhas ancas, olha a minha família, olha a minha carga genética. Eu sou negra sim! Minha pele não mostra e sei que acabo 'sofrendo' os privilégios de branco que, diga-se de passagem, eu nem sou. Aliás, lembro de uma aula de antropologia na pós-graduação que lemos um texto de Sílvio Romero falando da inferioridade do mestiço, de como, num processo de mestiçagem, você perde elementos de força de uma raça e de outra, resultando numa grande junção de inferioridades. Sílvio Romero não mudou minha opinião sobre ser mestiço, continuo achando massa, mas se eu tenho descendência e sangue negro, eu sou negra também!
Sempre vi o racismo direcionado à mainha. Quantos 'essa menina clara é mesmo tua filha?' eu não ouvi do lado dela? Lembro que uma vez, num restaurante, eu fiz o meu prato e deu mais caro que o dela, mas foi para ela que a dona perguntou 'deu tanto, vai querer mesmo?', como quem pergunta se ela tinha condições de pagar porque quem já viu preto ter dinheiro para pagar caro em almoço, não é? Eu levantei e a procurei para dar o discurso, mas mainha me segurou pelo braço e disse 'Deixe! Eu tenho preconceito com os outros, eles também têm comigo!' e foi então que percebi que aquilo havia sido um ensinamento pra mainha que era negra e racista. Dia desses entrei numa briga com um segurança negro que perguntou ao meu namorado onde ele estava indo e quando viu que ele estava comigo disse 'Ah, está com a senhora? Então tudo bem!'. Não consegui segurar a indignação, gritei, esbravejei na cara dele que aquilo era racismo e que ele, mesmo preto, era racista. Não me contive e quando cheguei em casa chorei porque isso dói, machuca, fere e mata. Por isso que aqueles emoticons do aplicativo são apenas emoticons, mas são meus e, portanto, são pretos!
O processo de empoderamento não é fácil. Todo dia tá aí um preconceito seja de gênero, de cor, financeiro, etc, para você quebrar e fazer isso é difícil pra caralho! Eu luto todo dia comigo mesma para ir contra tudo isso que foi pré-estabelecido por essa sociedade doente. Eu luto para mostrar aos homens, e principalmente às mulheres, que eu conheço que macho e fêmea é igual e, portanto, não podem ser tratados de forma diferentes. Luto para mostrar que preto nesse país não tem oportunidade e que cota não é a melhor opção, mas é a única válida no momento. Luto para mostrar que um processo de impeachment contra uma presidenta eleita democraticamente nada mais é do que o desejo de uma elite que tá cansada de ver pobre tendo oportunidades. Luto para mostrar que ter padrão estético é uma prisão e que essa prisão pode matar pessoas. Aliás, falando em prisão estética... quem já viu gordo com auto estima, né? Pois eu sofro esses olhares diariamente! Eu nunca fui magra, mas também nunca fui gorda. Era sempre aquela pessoa normal, com peso normal e que se alimentava mal pra caralho. Tinha um intestino que não funcionava e um péssimo hábito alimentar. Quando entrei na faculdade, a alimentação ficou pior e mais desregulada e eu ganhei muitos pesos a mais. Aí já viu, né? Alguém o tempo todo dizendo 'você tá ficando cheinha, era tão linda quando era magrinha'. Mas eu continuo linda, gorda, magra, de cabelo grande ou curto, morena, loira ou ruiva. Eu sou linda porque quem determina isso é uma única pessoa: EU! Sou eu quem diz que roupa fica boa no meu corpo. Sou eu quem diz que corte de cabelo vai se moldar o formato do meu rosto! Sou eu quem decide se eu devo ou não perder peso e essa perda tem que ser baseada em saúde e não em um padrão estético. Se você só consegue achar beleza em pessoas magras, altas, brancas, de cabelo liso e, na grande maioria, loiras, o problema é seu! Você que tem uma doença social e é você que precisa de tratamento. Eu preciso de saúde e existem gordos que esbanjam saúde, sabia? É preciso compreender que padrões são padrões e não elementos naturais que estão acima da escolha de uma sociedade.
Semana passada, quando apareceu a hashtag #meuamigosecreto nas redes sociais, entrei numa discussão (do bem, pelo menos para mim) com um amigo querido que, não fugindo a sua natureza de macho, tentou diminuir e enfraquecer o movimento, mesmo que inconsciente, porque é isso que os homens fazem. É mais fácil mostrar a fraqueza dos outros que assumir os seus defeitos. Não é fácil abrir mão dos privilégios seculares de homem e, de repente, ver mulheres querendo direitos iguais, Mas quer saber? Nós não estamos pedindo a sua autorização, nós estamos informando que somos iguais e, portanto, temos os mesmos direitos! Nós estamos aqui para dizer que seguiremos e que não adianta enfraquecer nosso discurso porque nós somos fortes e o fortaleceremos quantas vezes for preciso. Estamos aqui pra dizer que a mulher pode votar, trair, lutar, beber, falar de futebol, religião, política e do que mais for. Estamos aqui para dizer que ela pode transar com homem, com mulher, com homem e mulher, com quem ela desejar. Estamos aqui pra dizer que a mulher pode ser o que ela quiser e quando ela quiser. Estamos aqui para dizer que a mulher pode ser presidenta e que ela tem do lado dela várias outras companheiras que lutarão junto com ela para garantir a democracia!
Perceber que eu não era a errada em pensar assim foi massa! Foi ver que sim, eu estava lutando contra a maré, mas a maré é que precisa mudar, não eu! O feminismo me ajudou a esclarecer apenas tudo o que eu já acreditava, mas não sabia que era feminismo. Ele me fez ver que toda a minha chatice, que ser tachada de diferente e difícil é o preço que se paga por transgredir as regras e por não aceitar uma cultura que me condiciona à vítima e à mera espectadora da minha vida. O feminismo me permitiu enxergar o meu papel no mundo e ele me mostrou que a liberdade está comigo, só precisa eu decidir usá-la e eu quero, nesse texto, agradecer não só ao feminismo, mas às feministas, as que levam na cara 'a falta de rola', as que são tachadas de vadias e as que lutam diariamente para empoderar 02 mulheres.
Obrigada, marcha das vadias! Obrigada, blogueiras negras! Obrigada, Shonda Rimes! Obrigada, Chimamanda! Obrigada, mulheres! Obrigada, amigas que estão nessa luta diariamente! Vocês me salvaram e salvam todo dia! Tamo juntas!!!

Sororidade sempre!!!

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